sábado, março 27, 2010

Sentimentos...


O coração sente novamente aquela angústia. Já sentira isto outras vezes. Mas dessa vez o sentimento apesar de calmo e sereno, tomou completamente seu ser, o deixando indefeso. Não é de forma alguma um sentimento de uma vida, de uma história. Mas algo que remonta outros tempos, outras vidas, outras perdas. Como um aroma ou um rosto que nunca se sentiu ou viu, mas que lembra algo tão íntimo, tão próximo.
O demônio que busca redenção nunca fora capaz de lidar com isso. Depois de tanto tempo vagando sem rumo, sem norte, acabara incapaz de definir ou entender. Talvez mais uma peça pregada por aquele que servira no passado, como parte de seu castigo. Duas vidas de homens já se passaram, e nem sequer se lembrava do por que de tudo isso. Mas em sua alma algo dizia que a resposta estava próxima, mas ela jamais chegava.
Quem pode entender os mistérios que sonda, o coração de um demônio? Quem pode entender a batalha que se trava dentro de um coração ressecado pela dor e pelo sofrimento?
Seu castigo era doloroso, e já não acreditava que fosse justo. O que fizera no passado para merecer tamanha punição?
Olhar em cada rosto e sentir que encontrara sua metade perdida. E em seguida perdê-la, pois a realidade vem à tona. Sentir um aroma que parece sempre igual, que o leva ao passado, para um tempo mais feliz, onde a esperança ainda existia, e a felicidade não era apenas uma ilusão.
Ele sente-se triste. Sabe como tudo isso terminará. De todas as lembranças, esta é a que sempre o atormenta. Não importa o quanto esteja próximo ao paraíso, o inferno o alcança, e o arrasta para baixo. Para uma nova condenação.
Esta é sua sina. Este é seu castigo. A redenção está próxima. Como uma porta ao lado. Mas é tão difícil atravessá-la. Tem medo que no momento que atravesse, deixe de sonhar. Sonhar com o que perdeu. Sonhar com o momento de reencontrar.
Sonhos. Tem sido o motor que impulsiona sua semi-vida. Antes buscava respostas. Mas ao encontrá-las percebeu que isso só trazia mais perguntas. A cada resposta, uma nova pergunta. E de repente se deu conta da verdade. O que buscara não existia, pelo menos não da forma que acreditava existir. Sua alma estava em pedaços. E só quando abandonasse seu desejo, poderia juntar os pedaços, e voltar a ter uma alma inteira.
Mas como abandonar o desejo? Como nunca mais olhar para trás? Abandonar a única coisa que tem sido sua razão de viver? Isso o demônio não sabia como fazer. Sempre que fechava os olhos, seu íntimo lhe traía. Trazia novamente aquele aroma, aquelas cores, aquelas formas; e seu coração estremecia.
Não queria sentir-se mais assim. Queria poder alterar o rumo que sempre tomava. Mas era difícil. Se tudo sempre lembrava a vida que tivera, e os sentimentos que sentira.
A figura do outro lado do espelho estava vencendo...