segunda-feira, março 02, 2009

O Espelho

Os olhos se abrem. A luz ofusca o primeiro contato. Algo mudou na percepção. Não se lembrava de um dia tão brilhante, tão vivo. A luz machuca. Seus se olhos se fecham. Agora sonha. O sonho mostra o mundo de antes. Mas não tão pesado, não tão cruel, apenas distante. A cada passo o sonho pesadelo fica para trás. Um grito corta o horizonte vermelho. É quase um pedido de socorro. O sonho acaba. O mundo ainda é o mundo, e as dores ainda são as dores. Ou seriam mais? Ele não sabe. Tudo parece intocável, surreal. As lembranças do agora surgem como flashes em sua confusa mente. Algo está errado. Era como despertar depois de um longo sono. Mas tudo que fizera enquanto dormia, dançava em sua mente ainda entorpecida. Sentimentos, sensações, dores, tristezas, alegrias, tudo passava ao mesmo tempo em sua cansada alma. Olhos... Ele via claramente diversos pares de olhos. Alguns tristes, outros alegres. Todos traziam consigo a culpa. Cambaleando tentava se afastar daquelas visões, mas para onde quer que fosse aquilo o acompanhava. Suspirou profundamente, e tossiu. O ar estava pesado. Cheio de luxúria e egoísmo. Como podia sentir tudo isso? O lugar ainda era o mesmo, e ele também era. Ou não era? Tudo mudou, ou apenas ele mudou. Sentiu o peso nos ombros. Cada passo parecia carregado de chumbo. Um nome. Em sua mente um nome se repetia sem parar. Precisava de ar. Ar puro. Não aquele ar viciado e sufocante. Caminhou cambaleando, até que pudesse respirar melhor. Suas costas queimaram, como se atingidas por um chicote. Virou-se. Não havia nada. Apenas um espelho o aguardava. Caminhou até o espelho. Relutou um pouco em encarar a si mesmo. Mas o fez. Não era um espelho. Era um portal para o abismo. Do outro lado um demônio de grandes asas o esperava sorrindo. Fez um sinal para que se aproximasse. “Não”. Gritou e virou o rosto. Quando olhou de novo, havia apenas um espelho. Ouviu gritos ao longe. Tentou se mover, mas não conseguiu. O medo percorreu seu corpo. Medo? O que era isso? Não sabia até aquele momento. Ou fingira não saber? E agora já não sabia mais fingir. Respirou profundamente. Olhou novamente para o espelho. Ali estava o demônio outra vez. Mas agora ele não virou o rosto ao ver o sorriso do demônio. “Eu sei meu nome e sei o meu caminho”, gritou encarando o demônio no espelho. O demônio abaixou a cabeça com tristeza, fez uma leve saudação, e lentamente desapareceu.
O ar estava respirável novamente. A primeira batalha fora vencida. Muitas ainda estão por acontecer. As lembranças de agora, cediam lugar para as lembranças de antes.