quarta-feira, setembro 12, 2012
Mais uma vez o raio de sol
brilhou sobre a planície árida. Mesmo as montanhas ameaçadoras no horizonte não
foram capazes de impedir aquela renovadora luz que trouxe nova vida para aquele
lugar. Pouco a pouco a vida tornou a brotar. Primeiro apenas uma única flor. Um
crisântemo triste e solitário, mas já era mais do que aquele lugar ermo vira
por séculos. Aos poucos outras flores se juntaram ao solitário crisântemo. Primeiras
margaridas, depois dentes-de-leão, em seguida copos de leite. Logo não havia
mais aridez. A vida havia retornado e aquele mórbido e escuro vale estava vivo
outra vez.
Não importa quanto tempo dure uma
tempestade. É preciso um único raio de sol para devolver as cores e a alegria
do mais desolado coração.
Que o sol brilhe naquele vale,
afastando todas as sombras da dúvida e da incerteza, nos brindando sempre com
verdade e compaixão.
quinta-feira, setembro 06, 2012
Ninguém em especial...
Aos poucos a paisagem foi se
transformando. A escuridão que preenchia tão densamente foi cedendo lugar à uma
claridade estranha, quase sem vida. Muito diferente da luz do sol que estava
acostumado.
Já podia enxergar algo que
lembrava vagamente grama no chão, apesar de aparentar uma textura diferente,
quase arenosa. Quando pisava sobre ela, as folhas se desmanchavam formando uma
trilha de areia esverdeada as suas costas.
Não demorou muito e se deparou
com uma estrada. Não, não era uma estrada. Parecia mais uma trilha esquecida em
meio aquela paisagem bizarra. Olhou para os dois lados, mas não viu ninguém, ou
qualquer sinal de que algo vivo estivesse por ali.
Suspirou profundamente. Queria
lembrar. Lembrar de coisas de ontem. Mas não conseguia. Seu passado era um
mistério. Parecia perdido em um mundo desconhecido. Seus passos eram
vacilantes, mas logo adentrou a trilha e seguiu por ela sem direção. Afinal não
sabia para onde deveria ir, se é que deveria ir para algum lugar. Seu peito as
vezes doía, uma dor estranha. Uma dor quase incômoda, mas aos poucos pensava se
não sentiria falta dela, caso ela o deixasse. Afinal, só desta forma se sentia
vivo. A cada batida de seu coração, uma nova esperança se formava em sua
ingênua mente. Talvez se lembrasse. Talvez estivesse sonhando e logo acordasse.
Talvez esta vida fosse apenas sombra de uma vida maior. Talvez assim não
sentiria tão insignificante.
Seus pensamentos vagueavam sem
rumo aparente, assim como seu corpo. Mas em dado momento, não sabe precisar
quando, sua consciência foi trazida de volta. Uma voz murmurava por sua
atenção.
Pela primeira vez depois de muito
tempo, alguém além de seus fantasmas cruzava seu caminho.
- Para onde vai? – Um ancião
recostado em uma pedra o olhava fixamente. – Tem certeza que está no caminho
certo?
- Não existe caminho certo para
quem não tem direção. – ele respondeu. – Vou para frente buscando respostas
para perguntas que ainda não fiz.
- Mas se ainda não fez as
perguntas – o ancião sorriu. Um sorriso malicioso e despreocupado. – Como espera
obter as respostas?
Ainda incapaz de se lembrar,
pensou sobre as palavras do ancião. De cabeça baixa, voltou a caminhar.
- Nada espero de um mundo que
desconheço – murmurou. – Nada sei de mim ou de qualquer pessoa. Busco encontrar
um sentido ao que não tem. Busco respostas ao enigma que me encontro. Não tenho
opção, pois nada sou neste momento. Mesmo que eu desapareça agora, não sei se
para alguém signifiquei algo. Nem mesmo saudades eu posso sentir, pois de nada
me lembro a não ser do agora. Agora este que nada de familiar para mim tem.
- Uma questão interessante, meu
amigo – o ancião se levantou. – Caminhe ao
meu lado por um tempo. Creio que poucas são as pessoas deste ou de qualquer
outro mundo que não sofram destes mesmos receios. Já que não tem um nome, te
chamarei de ninguém. Tem algo contra isso?
- Não – ele levantou a cabeça e
olhou fixamente nos olhos do ancião. – É assim mesmo que me sinto. Ninguém em
especial para alguém. Ninguém que esteja fazendo falta para alguém. Ninguém que
possa fazer diferença na vida de alguém.
- Pois bem, meu caro ninguém – o ancião
começou a caminhar. – Venha. Quero lhe mostrar algumas coisas.
E assim os dois passaram a
caminhar naquela trilha vazia que não conduzia a lugar algum. Pelo menos nenhum
lugar que fosse realmente importante. Mas quem definiu a importância das
coisas? Para aquele que nada se lembra, qualquer coisa que possa lhe fazer
sentir vivo tem a maior importância do mundo.
Aos poucos a paisagem mudou
novamente, e as densas trevas ficaram para trás desaparecendo completamente.
Mais uma vez, deixara o abismo.
segunda-feira, setembro 03, 2012
O Triste Caminho...
Os olhos se abrem. Seu peito dói.
Não uma dor aguda, mas uma dor incômoda, insistente. Como se uma pequena lâmina
perfurasse lentamente seu coração. Um cheiro terrível domina o lugar. Ele não
sabe onde está. Nem mesmo se lembra de como foi parar ali. Um abismo... Sua
última lembrança. Um nauseante e mal cheiroso abismo. Lembra-se de estar
caindo... Por eras intermináveis... Nas paredes olhos amarelos o espreitavam em
sua queda. Risadas demoníacas ressoavam sem cessar. Então quando parecia que ia
enlouquecer completamente, seu flácido corpo chocou-se com algo sólido na
imensidão negra. Era sólido, mas a consistência lembrava algo como esponja.
Antes que se percebesse sua consciência foi se esvaindo, até que mergulhou em
um mundo de sonhos. Ou será que estava sonhando e só agora acordara? Não sabia.
Estava inebriado pelas sensações tão causticantes que o dominavam. As vezes,
luzes piscavam e parecia que poderia reconhecer rostos. Rostos do passado. Uma
mulher. Havia uma mulher. Mas quem era ela? Por que seu coração disparava sem
controle quando pensava naqueles profundos olhos da cor do mar? A confusão em
sua mente era completa. Tentou se lembrar, mas sua cabeça latejava todas as
vezes que um nome quase surgia. Enfim reúne forças e consegue se levantar. Está
imerso em um oceano cinzento de dúvidas. A neblina que o alcança até a cintura
o impede de enxergar o chão por onde pisa, mas mesmo isso não o impede de
caminhar vacilante. Precisa saber por que esta naquele lugar. E principalmente
quem é aquela mulher que invadiu sua mente com tanta força, que já não consegue
se concentrar em mais nada. Olha fixamente para frente. Um ponto brilhante
reluz bem as sua frente, e logo todas as dúvidas se dissiparam. Tinha certeza
que era naquela direção que deveria seguir. Assim começou sua nova vida. Sem
lembranças das dores que causou ou que sofreu, não poderia aprender com seus
erros e caminhava novamente para o terrível abismo que o conduzira ate ali. Não
muito longe dali, olhos amarelos repletos de malícia acompanham seu caminhar e
não demora muito para uma estridente gargalhada tomar conta daquele pernicioso
lugar.
Cheio de esperança como estava, não
percebeu a armadilha se formando diante dele.
“Sua alma sempre será minha,
Christopher... Não importa o quanto fuja, é para cá que você sempre retornará.”
– Saiu quase como um murmúrio, mas naquele hediondo lugar, a voz gutural
ressoou como trovões.
Para ele era o início... Início
de uma nova queda...
sábado, setembro 01, 2012
Despertando...
Sim, o fim chegou. Te todas as esperanças, de todas as
ilusões. Ilusões, sempre ilusões. Assim é o caminho do tolo que ousar sonhar
mais do que sua realidade triste pode almejar. Imerso em dor, tristeza,
sofrimento, ele olha para trás e vê novamente a história se repetir. Assim como
no passado o presente se mistura ao futuro, e mais uma vez sua triste sina o
conduz ao negro caminho das incertezas.
Sonhou um dia que o brilho do sol pudesse lhe tirar do
profundo abismo que se encontrava. Sonhou que um raio deste maravilhoso sol,
pudesse interromper sua sina terrível. Mas assim como todos os sonhos acabam
este também acabou e chegou a hora de acordar e encarar a triste realidade.
A realidade... Como ele desejou que não fosse assim... Que a
realidade não fosse tão fria e cruel... Mas ela é... Quer o tolo goste ou
não...
Triste caminho. Triste sina. Até quando pagar pelos erros do
passado? Isso o tolo não sabe... Está novamente preso no emaranhado de
desilusões que o prendem há mais de duas vidas, e que sonhava que nesta pudesse
se libertar.
Mais uma vez o fim... De volta para o abismo... De onde
talvez nunca devesse ter saído...
Um brinde a todos os que ainda sonham...
Um minuto de silêncio para aqueles que já acordaram...
Uma prece para aquele que jamais voltarão a sonhar...




