Definhando...

Ele estava acabado. Sua força se esvaíra completamente. Passava a maior parte do tempo no castelo agora semi-abandonado. Ali ele sonhava com ela. Sonhava com seu retorno. Olhava para porta, e ficava imaginando ver novamente aqueles olhos cruzando com os seus. Ouvir aquela suave voz. Sentir aquele perfume que entorpecia sua alma.
- Mestre Christopher – disse o criado, o único que não fora embora, talvez seu mais fiel amigo. – Deve se animar. Faz dias que não sai deste aposento.
- Por que eu sairia? – disse o melancólico Christopher. – Ela não está mais lá fora. Ela desapareceu por completo.
- Quer que eu continue procurando por ela? – perguntou o criado.
- É inútil – murmurou Christopher. – Ela está fora de nosso alcance. Para sempre.
- Me preocupa vê-lo dessa forma – disse o criado. – O senhor não pode se entregar.
- Você não entende não é? – Christopher levantou-se. – Estou acabado. Eu cometi o maior erro que eu poderia ter cometido, e agora terei que pagar por isso.
- Mas que erro foi esse? – perguntou o criado.
Christopher caminhou até a janela e ficou observando a praia.
- Eu me apaixonei, meu caro – Christopher suspirou. – Me apaixonei perdidamente e por isso desafiei meu Senhor. Aquele que nos trouxe de volta à vida.
O criado ficou cabisbaixo.
- Eu sei que não gosta que eu toque nesse assunto – disse Christopher. – Mas eu preciso lhe dizer algo.
- Estou aqui para servi-lo, senhor – disse o criado, ainda demonstrando um certo incômodo com aquela conversa.
- Não seja tão frio – disse Christopher. – És o único amigo que ainda tenho. Não precisa de formalidades.
- Como o senhor desejar – disse o criado.
Christopher sacudiu a cabeça.
- Meu tempo aqui está acabando – disse. – Em breve vou deixar este mundo.
- Como assim? – perguntou o criado. – Você não pode morrer. Não ainda.
- É tarde demais para mim – disse Christopher. – Aquele a quem eu chamo de pai, já reivindicou minha alma.
- Não diga tolices – o criado parecia perturbado com aquelas palavras. – Sua alma não pertence a demônio nenhum.
Christopher sorriu. Um sorriso quase apático.
- Quisera eu que suas palavras fossem verdadeiras – disse. – Mas a realidade está bem longe disso.
- Eu não posso aceitar isso – disse o criado indignado. – Apenas Deus pode reivindicar almas para si.
- Não discutirei isso com você, meu amigo – disse Christopher. – Preciso que faça algo por mim.
- Seu desejo é uma ordem, senhor – disse o criado.
- Quero que prepare a escritura dessa propriedade – disse Christopher – Para doá-la para a Igreja.
- Como assim? – o criado parecia confuso. – E para onde o senhor irá?
- Devo voltar para o lugar de onde jamais deveria ter saído – murmurou Christopher. – Agora vá. Por favor não perca mais tempo.
- Está bem – e o criado deixou a sala.
Christopher sentou-se. Uma estranha calma preencheu seu espírito. Ele sentia que seu fim estava próximo. Levaria consigo para sempre a lembrança de um anjo. Um anjo que ele maltratara e deixara que fugisse. Mas um anjo que o transformou por completo. Ele encararia sua punição com orgulho. Podia ter cometido muitos pecados. Mas nessa vida ingrata conhecera o amor. E disso ele jamais se esqueceria. E nem mesmo o pior castigo no Inferno poderia apagar esse sentimento de seu coração. Ele estava pronto para morrer...

1 Comments:
...como assim? vc amou !!! e amar é um sentimento nobre !!! é ao contrário !!! vc está salvo.
beijinhos iluminados pra ti.
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