O Despertar

Hoje eu acordei. Pela primeira vez em cinco anos eu acordei. As trevas que me cercavam e me alimentavam se foram. Estou só. Completamente e inexoravelmente só. Mas não me sinto livre. As trevas espreitam ao meu lado. Não estão comigo, mas não me deixam completamente. Eu olho para trás e não vejo nada. É como se outra pessoa tivesse vivido em meu corpo por cinco anos. Ontem a casca quebrou. Toda minha proteção se foi. Eu chorei. Chorei em desespero. Não me sentia só e abandonado a tanto tempo, que havia me esquecido do gosto amargo que isto tem. Mas agora é tarde. As trevas zombam de mim e não me deixam dormir. Mas também não me deixam acordar por completo. Estou preso em um paradoxo, com o qual já não mais consigo conviver. Peço que as trevas me libertem, mas elas zombam de meu tolo pedido. No fundo de minha mente eu vejo a única saída para minha triste condição. Mas o medo não me deixa por em prática minha tentativa de fuga. Estou preso em um limbo de indecisões, sonolento demais para acordar e desperto demais para conseguir dormir...
Minha vida se foi... Que outra agora comece...
Trevas... Trevas...
Me cerquem, me tomem
Me guiem...
Sou apenas uma ferramenta...
Venham demônios de meu passado...
Venham nefastas criaturas...
Eu aceito este legado...
Que me impõe sob vil tortura...
Não temo mais esta condição
Perdi toda fé que um dia já tive
De bom grado aceito a servidão
Mesmo neste dia tão triste
Falhei comigo mesmo
(será que era eu mesmo?)
Falhei com aqueles que estavam ao meu lado
(Estavam realmente comigo?)
Será que posso vagar ao esmo?
Sem que esteja por fim derrotado?
(isto eu já fui há muito tempo)
A dor agora é minha única certeza
Mas com o tempo ela sumirá
Mas toda bondade de minha alma
Neste dia me deixará
O demônio que em mim habita
Anseia por despertar
E o anjo que outrora eu fui
Está ansioso por descansar
Uma era triste está para começar
(que comece então)
Sofrimento a todos isto vai trazer
(que a danação persiga a todos)
E eu não posso calcular
Que danos em mim isto pode fazer
Não queria que tudo terminasse assim
Eu realmente queria acreditar na redenção
Mas para o demônio que habita em mim
Só pode haver condenação
Trevas... Trevas...
Por que me abandonaram?
Não fui eu um servo fiel?
Não destruí todos que um dia me amaram?
Trevas... Trevas...
Por que ainda zombam de mim?
Sei que sou fraco e me rendi ao amor
Mas quero por em tudo isto um fim
Do amor não quero lembranças
Da dor não quero o pesar
Apenas o ódio e a vingança
Ao meu coração vão retornar
Sou novamente livre dos grilhões humanos
(novamente? algum dia estive livre?)
Posso voltar a ser aquilo que já fui
(não, não posso)
Vejo agora o passar dos anos
(passam tão rápido)
E toda dor que em mim agora flui
(dor terrível que isto me impõe)
Nada mais posso fazer agora
Marionete novamente eu sou
O destino zomba de mim nesta hora
E um terrível encontro comigo marcou
A luz do meu passado me alcançou
E as trevas do meu presente se agitaram
Tinha em minhas mãos a pessoa que me abandonou
Por que não poderia eu ter aproveitado ?
Podia me vingar naquela hora
Trazer todo o sofrimento de volta
Fazê-la se arrepender sem demora
Por ter me causado tamanha revolta
Mas ao vê-la tão frágil e triste
Não pude me aproveitar de sua dor
Mas minha natureza é terrível
E nunca apaga meu rancor
Fiz ela chorar novamente
E sua presença logo se esvairia
Mas minha surpresa se fez neste instante
Pois não senti nem pena e nem alegria
Meu caminho incerto e vazio
Continuou com todo o meu pesar
E agora um novo destino
Eu anseio por alcançar
Novamente me encontro diante do amor
Decisões difíceis terei que tomar
Mas se para o amor tudo é válido
Não receio este desafio ter de enfrentar
Só temo não ter feito a escolha certa
Trevas... Trevas...
Por que estão a me perseguir ?
Se caminhando nesta escura terra
Jurei para sempre lhes servir ?

1 Comments:
O feixe de luz sempre transparecerá as trevas......amor é uma dádiva ... não há batalhas eternamente perdidas...
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