domingo, março 12, 2023

Um novo começo...

 


Ele caminha pesaroso. Mais uma vez retorna para aquele sombrio e desolado lugar. Mais uma vez sente o peso de suas escolhas recaírem sobre seus ombros. Suspira profundamente. Não tem mais lágrimas para rolar, mas mesmo assim cerra os olhos com força. De olhos fechados, tenta se concentrar nas lembranças. Bons momentos. Momentos raros e únicos. A felicidade dançando em sua mente. Pode sentir o cheio daquele perfume tomando suas narinas. E o som dos risos. Aquela risada preenche o vazio de sua mente. Então o choque da realidade. Abruptamente abre os olhos e ali está. Sozinho. Naquele sombrio e desolado lugar.

Quantas vezes já saíra e voltara à esse lugar? Já perdeu as contas. Talvez de fato esse seja seu lugar. Talvez deva se resignar e aqui ficar. Não queria acreditar naquelas palavras que ouvira há tempos, mas cada vez mais elas fazem sentido em sua perturbada mente.

O fim ou um novo começo? Sinceramente pouco importa. Estava mais uma vez juntando os cacos de sua alma quebrantada. Olhou para os lados, mas não via ninguém. Nem mesmo a terrível sombra que lhe atormentou todas as vezes que voltou para aquele lugar.

O que havia mudado? Não sabia de fato. Mas sabia que estava ferido e sozinho. Recorda-se dos desejos antigos que lhe assombravam o âmago quando estava ali. Já desejou morrer mais vezes do que sonhou ser feliz. Mas agora não deseja morrer. Isso é algo novo.

Para diante daquele abismo já tão conhecido. Olha para baixo e o encara. Dessa vez, ninguém o encara de volta. Nenhuma gargalhada ressoa pela escuridão. Algo ali não estava certo. Pelo menos não parecia ser real. Ou tudo que vira, ouvira e sentira antes é que não era real?

Senta-se no frio chão. Cabisbaixo abraça suas pernas. Sem que perceba as lágrimas começam a brotar e um choro convulsionante toma sua face. Queria gritar, mas a voz lhe falha. Apenas chora desesperadamente. A hora chegou. O momento mais evitado havia enfim o encontrado. Chegou a hora de crescer.

Nenhum demônio o ampararia agora. Nenhum deus antigo o acolheria mais. Nem mesmo uma sombra seguraria sua mão. Estava na hora de encarar seus maiores temores. Sem recorrer a divindades ou subterfúgios de sua alma dilacerada pela dor.

Ele abre os olhos. Então após tanto tempo ele a encara. A criança está ali. Olhos verdes tristes e pesarosos. Uma criança enlutada eternamente. Seu rosto pálido. Suas mãos trêmulas. Dor e medo pareciam tomar forma naquela criança.

Ao contemplar aquela triste figura, ele sabe o que precisa fazer. Vacilante se levanta e caminha vagarosamente na direção dela. A criança permanece parada. Estática. Como se estivesse paralisada. Seus olhos encontram os olhos da criança e se fixam neles. Apesar de tristes, são quase hipnotizantes. Ele então se coloca ao lado da criança e lentamente segura com cuidado aquela pequena e trêmula mão.

A criança olha para ele e esboça um tímido sorriso. Os dois começam a caminhar para longe do abismo.